O valor do que não acontece

Ninguém é insubstituível. Essa é uma máxima quase inquestionável, que hoje ouso flexibilizar.

No ambiente corporativo, ela é bastante difundida e constantemente repetida, porque é sempre bom lembrar que empresas continuam existindo após aposentadorias, demissões, desligamentos e mudanças de gestão. A operação segue. Novas pessoas chegam. A estrutura se acomoda e se reorganiza.

Algumas ausências, no entanto, parecem produzir efeitos desproporcionais e ser mais sentidas do que outras, quase provando por A + B que há quem seja insubstituível, sim.

Destaco aqui aqueles profissionais cuja presença produz pouco ou quase nenhum ruído, cuja importância raramente aparece nos relatórios de desempenho, mas se revela rapidamente quando precisam se afastar: o gestor que conecta áreas sem alarde; o colaborador que conhece os detalhes e detém a memória da operação; a pessoa que resolve conflitos antes que eles cresçam. Aqueles que preservam relacionamentos, compartilham contexto e impedem que pequenos problemas se transformem em grandes crises.

Enquanto presentes, tudo parece funcionar. As informações existem, os processos acontecem e as pessoas sabem para quem perguntar. Enquanto estão lá, ninguém percebe quantas decisões passam por eles, quantos conflitos eles resolvem, quantos problemas eles impedem que cresçam e cheguem adiante.

Por isso, muitas vezes, seu valor passa despercebido. Afinal, é difícil notar aquilo que funciona ou medir aquilo que não aconteceu. Ninguém elogia diariamente a ponte que se mantém de pé, mas todo mundo vê quando ela cai.

Quando a operação segue redonda, não aparece no indicador o conflito que foi evitado, a negociação que não se deteriorou, a paralisação que não ocorreu ou a decisão equivocada que deixou de ser tomada porque alguém percebeu o risco a tempo.

Mas algumas organizações só descobrem que a ponte, senão caiu, poderá cair a qualquer momento, quando esses profissionais saem de cena. Ou quando adoecem. Ou quando tiram férias. Ou quando, por qualquer razão, deixam de estar permanentemente disponíveis.

É aí que surge uma contradição interessante: embora ninguém seja insubstituível, algumas pessoas simplesmente não podem se ausentar. Não podem desligar o celular nas férias. Não podem perder um familiar. Não podem descansar sem que parte da operação sinta imediatamente sua falta.

Embora isso revele uma falha da organização em transformar conhecimento individual em estrutura, passando a depender de pessoas, quando deveria depender de processos, o silêncio de um trabalho eficiente leva à crença de que ele é dispensável – até o dia em que ele desaparece.

Enquanto tudo funciona, não há conflito, não há paralisação, não há crise. E, aparentemente, não há também percepção de valor. Porque o que gera receita, reduz custos ou aumenta produtividade tem valor mensurável e visível em relatórios. Já o valor do que mitiga riscos, preserva relacionamentos e evita perdas futuras só aparece na ausência dos problemas que nunca chegaram a acontecer.

Não posso afirmar que a maturidade de uma empresa pode ser medida pela sua capacidade de resolver problemas quando estes surgem. Mas, certamente, um dos seus indicadores está na capacidade de reconhecer valor antes da perda, de identificar e preservar pessoas, processos e mecanismos que silenciosamente impedem que tais problemas aconteçam.

Ninguém é insubstituível, como se sabe. Mas algumas ausências nos obrigam a admitir que perdemos tempo demais sem perceber o valor de determinadas presenças.

O que acreditamos ter combinado

Existe um momento comum a quase toda negociação bem-sucedida: aquele em que todos se levantam da mesa satisfeitos. Um entusiasmo generalizado se propaga rapidamente. Os sorrisos e os apertos de mão são sinceros. As últimas divergências parecem superadas e a sensação geral é a de que o acordo, finalmente, foi alcançado.

Das maiores ilusões que já presenciei no mundo dos negócios, acreditar que esse instante é o momento em que os problemas terminam talvez seja a maior. Muitas vezes, é exatamente ali que eles começam.

Há alguns anos, ouvi de um executivo uma observação que nunca esqueci. Ao notar meu entusiasmo ao final de uma reunião, ele afirmou categoricamente que as reuniões de alta gestão costumam ser extremamente agradáveis. Reúnem pessoas inteligentes, experientes, bem-preparadas, dotadas de traquejo social e excelentes habilidades de negociação. O ambiente é cordial. As conversas fluem. As decisões avançam, mas os problemas normalmente surgem quando todos se despedem e voltam para suas mesas.

Na época, achei a observação curiosa. Hoje, acho que ela descreve com precisão uma das principais fontes de conflito nas relações empresariais: a crença perigosa de que o que foi negociado entre sorrisos habilidosos foi o que restou protegido no contrato.

Às vezes, duas pessoas participam da mesma reunião, ouvem as mesmas palavras, discutem as mesmas cláusulas e saem dali absolutamente convencidas de que entenderam a mesma coisa. Meses depois, descobrem que não. Ninguém agiu de má-fé. Ninguém mentiu. Ninguém tentou enganar ninguém, mas cada um levou para casa uma interpretação diferente daquilo que acreditou ter combinado.

Talvez por isso ainda haja quem se surpreenda quando surge um conflito após a formalização de um contrato. Se o documento foi discutido, negociado, revisado e assinado, como ainda poderia dar errado?

A verdade é que contratos não são escritos apenas com palavras, mas também e sobretudo com expectativas. E expectativas possuem o péssimo hábito de permanecer invisíveis enquanto todos parecem concordar.

O problema aparece mesmo quando surge a primeira situação concreta que exige interpretação. É aí que as pessoas descobrem que passaram meses acreditando ter entendido a mesma coisa e assinado o mesmo acordo.

Registrar aquilo sobre o qual as partes concordam é fundamental nos contratos, mas, mais importante que isso talvez seja revelar neles aquilo sobre o qual as partes ainda não perceberam que discordam. Porque, ao contrário do que se difunde por aí, prevenção não consiste apenas em formalizar o óbvio por escrito. Prevenção jurídica consiste, especialmente, em fazer perguntas incômodas enquanto ainda existe tempo para respondê-las. Antes dos sorrisos satisfeitos, do contentamento efusivo, antes que todos voltem para suas mesas acreditando que assinaram o mesmo contrato.

Ter razão nem sempre é suficiente.

O caso Henry Borel voltou aos noticiários e, como costuma acontecer em casos de grande repercussão, milhares de pessoas passaram a discutir se a decisão judicial foi justa ou injusta. Tenho minha opinião, mas não pretendo compartilhá-la aqui. O que me traz aqui hoje é outra coisa.

A quantidade de pessoas chocadas e frustradas com a sentença do caso revela, a meu ver, o quanto ainda se acredita ser o Direito um tipo de calculadora em que basta inserir os fatos para obter a resposta correta. Como se a sua aplicação funcionasse como uma operação matemática, em que fatos evidentes conduzem inevitavelmente a resultados evidentes. Não funciona assim.

O Direito não é óbvio, não é simples, não é preto ou branco. Quando um problema chega ao Judiciário, o resultado deixa de depender apenas daquilo que aconteceu e passa a depender também daquilo que será possível provar, argumentar, interpretar e, principalmente, convencer. E isso ainda surpreende muita gente, como se vê.

No ambiente empresarial, por exemplo, ainda é comum encontrar quem enxergue contratos, acordos societários e estruturas preventivas como custos dispensáveis. Afinal, se surgir um problema, sempre será possível recorrer ao Judiciário. Mas recorrer ao Judiciário significa, em alguma medida, renunciar ao controle. Significa entregar a terceiros a interpretação de fatos, documentos, condutas e intenções que muitas vezes levaram um tempo considerável para se formar – e é aqui onde reside uma das maiores ilusões do mundo dos negócios.

Muitos empresários acreditam que, diante de um descumprimento contratual ou de um conflito relevante, o juiz simplesmente aplicará a lei e restabelecerá a ordem das coisas, considerando a sua própria perspectiva que lhe parece evidente. A realidade é mais complexa.

A pessoa que julgará aquele caso não participou da negociação. Não conhece a história da empresa. Não assumiu os riscos daquele empreendimento. Não precisou decidir entre investir, contratar, expandir, recuar ou encerrar uma operação. Não sentiu o peso financeiro, emocional e patrimonial das escolhas feitas até ali.

Ainda que extremamente preparada, ela terá acesso apenas a uma representação tardia da realidade: documentos, depoimentos, provas e narrativas produzidos anos depois dos fatos. E, por melhor que seja sua formação jurídica, conhecer o Direito não significa conhecer o negócio construído pelas partes, os riscos assumidos ao longo do caminho ou o valor estratégico que cada decisão possuía quando foi tomada.

O Judiciário existe justamente para solucionar conflitos entre pessoas que já não conseguiram resolvê-los sozinhas. Mas isso não elimina uma verdade desconfortável: quem decidirá o que é juridicamente relevante para o caso será alguém que conhece seu negócio muito menos do que você. Alguém cuja formação foi direcionada ao estudo do Direito, não à construção da empresa que você levou anos para erguer. Alguém que precisará reconstruir, a partir de recortes, uma realidade que você viveu integralmente, e em cima desses fragmentos, formar livremente o seu convencimento.

Não, o juiz não pode decidir exclusivamente baseado em seus desejos, crenças e sentimentos. Sua atuação é vinculada ao ordenamento jurídico e este conjunto legal exige interpretação para ser aplicado. E é bem aqui que o Poder Judiciário deixa de ser uma instituição idealizada e se materializa em uma pessoa, com formação técnico-jurídica, mas também com experiência pessoal, valores, visão de mundo, origem social e opinião política.

É por isso que muitos empresários acreditam que possuem um direito, mas poucos percebem que, quando precisam pedir a um juiz que o reconheça, já perderam uma parte importante dele: o controle sobre o resultado. Porque prevenção jurídica nunca foi apenas uma tentativa de evitar litígios ou custos processuais. Ela é, sobretudo, uma tentativa de reduzir incertezas. De diminuir a quantidade de variáveis entregues ao tempo, à memória das testemunhas, à qualidade das provas, à interpretação dos fatos e ao convencimento de terceiros – estes últimos humana e geralmente impactados pela subjetividade de vieses cognitivos inconscientes.

A economia de R$ 2 mil que custou R$ 200 mil.

O negócio parecia excelente. Para economizar cerca de R$ 2 mil em honorários advocatícios, um empresário decidiu não contratar um advogado para elaborar o contrato de compra e venda de um terreno destinado a uma futura incorporação imobiliária. Ele conhecia o vendedor, havia confiança entre as partes e sempre existe uma minuta pronta e gratuita na internet para situações como essa.

Meses depois, descobriu que o terreno não comportava o projeto que pretendia desenvolver. A solução parecia simples: rescindir o contrato, desfazer o negócio e recuperar o sinal pago. Mas havia um problema: o contrato assinado não previa aquilo que deveria ter previsto. O resultado foi a necessidade de desembolsar aproximadamente R$ 200 mil para quitar a obrigação assumida antes de conseguir revender o imóvel e encerrar a operação.

Não foi o único caso parecido que vi ao longo da carreira.

A recorrência de casos como esse costuma decorrer de uma crença muito difundida no ambiente empresarial: a de que prevenção jurídica é custo – e desnecessário. Estranhamente, essa percepção costuma desaparecer após o surgimento do problema.

Na prática, empresários raramente deixam de contratar proteção porque desconhecem os riscos que envolvem seus negócios. Ao contrário. Deixam de contratar porque acreditam que tais riscos se materializarão com outras pessoas, outras empresas, outros negócios – nunca com os seus.

A confiança parece suficiente. A boa relação parece suficiente. A experiência parece suficiente. Até que deixem de ser.

É interessante observar que quase ninguém se arrepende do valor investido para evitar um problema que nunca aconteceu, mas muitos se arrependem do valor economizado quando descobrem o preço real de um problema que poderia ter sido evitado.

Talvez porque os riscos mais caros não sejam aqueles que conhecemos. São aqueles que acreditamos não existir. E é justamente por isso que contratos nunca foram apenas um aperto de mãos. São instrumentos para lidar com situações em que a confiança, a boa vontade, a proximidade e a boa conversa deixam de ser suficientes.

O prejuízo raramente começa no Judiciário

Há quem ainda enxergue contrato como mera burocracia. Um documento necessário apenas para “formalizar” o que foi combinado.

O problema é que a operação não funciona com base em alinhamentos subjetivos, mas com responsabilidades definidas, riscos distribuídos e previsibilidade mínima. Infelizmente, isso costuma ficar evidente tarde demais.

Fornecedor que interrompe entrega no meio de uma demanda crítica. Prestador que descumpre prazo sem consequência prática prevista. Cliente que altera escopo continuamente enquanto a equipe absorve custo, desgaste e atraso operacional. Parcerias construídas na confiança, que não se sustentam em mecanismos reais de proteção quando o cenário muda.

Quase nunca o prejuízo começa no Judiciário. Ele começa bem antes: na desorganização da operação, na perda de tempo gerencial, na dificuldade de cobrar, na insegurança para decidir, na margem financeira que se corrói silenciosamente.

Não se trata de simples formalização de um aperto de mãos. Contrato serve, principalmente, para evitar: (i) que a empresa opere no improviso quando o problema inevitavelmente surgir, (ii) que ela se distancie da finalidade do negócio e (iii) que sua autonomia se perca sob o jugo de um terceiro desinteressado.

Empresas maduras entendem que contratos bem estruturados não refletem apenas um objeto, seu preço e sua forma de pagamento. Protegem direitos. Mas, também e especialmente, protegem fluxo operacional, continuidade, prazo, caixa e capacidade de crescimento sustentável.

Prevenção raramente chama atenção no curto prazo. Basta uma falha relevante, no entanto, para que a sua ausência custe muito mais do que teria custado construí-la corretamente.

Sobre gelo, uísque e relações de trabalho.

Neil deGrasse Tyson, astrofísico e divulgador científico que gosto muito, disse que “o poder e a beleza das leis físicas é que elas se aplicam em todos os lugares, quer você escolha acreditar nelas ou não. Em outras palavras, depois das leis da física, todo o resto é opinião.”

Quando colocamos gelo numa bebida em temperatura ambiente, o gelo derrete e a bebida resfria até que ambos entrem em equilíbrio térmico. Essa é a base da Lei Zero da Termodinâmica. Um mecanismo de autorregulação natural que visa a conservação da energia, impõe-se a tudo e a todos e sem o qual a Terra seria “um lugar de extremos inabitáveis”.

Comércio, mercado e relações de trabalho parecem obedecer à Lei Zero, pois possuem uma tendência natural de autorregulação. Estão sempre buscando o “equilíbrio térmico” entre a oferta e a procura. No caso do mercado de trabalho, muita procura por profissionais qualificados e pouca oferta resultam em aumento de salários. Inversamente, um número maior de profissionais disponíveis para um mercado que não necessita de tantos já força a queda da remuneração e a barganha para a contratação de quem faz mais por menos.

Ou seja, embora exista uma necessidade operacional de força de trabalho de um lado, do outro há milhares de pessoas tentando construir uma vida minimamente digna para si e para suas famílias e, em algum ponto, como em qualquer dinâmica de oferta e demanda, alguém terá que ceder para que o sistema continue “habitável” e funcionando.

Talvez por isso exista uma discussão legítima sobre até onde deveria ir a intervenção estatal nesse tipo de relação. Porque existe uma diferença entre proteger direitos fundamentais e tentar regular, de maneira simplificada, relações humanas e econômicas extremamente complexas – especialmente quando temas estruturais acabam reduzidos a slogans atraentes e soluções eleitoreiras.

A promessa simbólica de aumento do descanso remunerado produz aplauso imediato. Mas os bastidores econômicos raramente são simples, porque reduzir oficialmente uma escala não significa, necessariamente, aumentar qualidade de vida. Talvez isso signifique o deslocamento do custo para a parte mais vulnerável da cadeia, com mais sobrecarga, menos contratação, mais informalidade e menor circulação de renda rastreável. Porque a conta sempre fecha em algum lugar.

Há um outro ponto pouco discutido: a não incidência do controle de horas para quem possui ensino superior e ganha mais que 21k. Reconhece-se com isso que ganhos maiores exigem maior qualificação e menor rigidez sobre o tempo e a própria jornada? Talvez isso exponha algo que raramente se admite com honestidade.

Migremos todos para o empreendedorismo então. Mas qual empreendedor realmente trabalha pouco? Qual autônomo consegue, verdadeiramente, ganhar mais, trabalhar menos e usufruir plena e livremente dos prazeres da vida? Os poucos que chegaram a esse ponto normalmente atravessaram anos — às vezes décadas — de risco, instabilidade, renúncia e desgaste físico e emocional.

A romantização da liberdade raramente mostra o preço operacional dela. Quase ninguém quer discutir o custo real das escolhas econômicas para empresas, para trabalhadores ou para quem empreende tentando apenas sobreviver. O palanque está cheio de retórica e alternativas apelativas sem alicerce ético e econômico que as sustente, mas o mercado encontrará um meio de compensação. Assim como o gelo e o uísque cedem entre si até encontrarem equilíbrio, mercados também reagem a interferências externas tentando criar formas de estabilidade, manutenção e sobrevivência. E isso não é uma opinião.

A INCULTURA DO CANCELAMENTO

Originariamente, a tal “cultura do cancelamento” não parece um fenômeno cultural. Não reflete a evolução dos costumes, das tradições, menos ainda um “cabedal de conhecimentos de um grupo social”. Parece, sim, uma ação de marketing. Um produto digital, talvez. Com persona, estratégia, lançamento. A cultura do cancelamento pegou a muitos de surpresa, como uma tendência neon imposta por figurinistas de renome após décadas de absolutismo tom-pastel. Cores berrantes agrediram os olhos, mas não encontraram qualquer empecilho para se infiltrar em acessórios e vestimentas, quando algum influente disse que assim deveria ser.

Na incessante busca por conversão, likes e fazer parte, muitos seguem o ritmo da dança das virtudes. Qualquer discurso informal deve antes obedecer a um rigoroso protocolo humanista, sendo seu orador, preferencialmente, a encarnação da excelência moral e da conduta desumanamente ilibada. O sufocamento da liberdade individual se impõe ao que se pensa, ao que se faz e ao que se fala. Embora o novo código estabeleça respeito e empatia universal, a capacidade de se colocar no lugar do outro e a tolerância às suas escolhas e especificidades só ganham utilidade e se efetivam quando da defesa de uma panelinha, de um pequeno setor no fim do corredor.

Carlinhos Maia, conterrâneo de meus ascendentes, perdeu “amigos” e patrocinadores por não beijar seu marido no altar. A presença feliz de seus pais, de sua sogra, já o fazia amado e respeitado como indivíduo, como ser humano. Não precisava cumprir um checklist midiático e forçar, goela abaixo, quem é e como vive à sociedade Penedense. Aliás, quem conhece Penedo, sabe. Eu, por exemplo, aos treze anos, caí na besteira de ir à festa de Natal na casa de minha avó, Dona Glorinha, aderindo às tendências da época e exibindo impudicamente meu umbigo. Levei uma chamada desconcertante na frente da família inteira. Nunca mais me meti a besta. Carlinhos, nitidamente mais corajoso que eu, acabou virtualmente linchado. Não porque levou ao altar outro homem à vista de tantas Glorinhas. Mas porque as autoridades do politicamente correto não acharam suficiente todos os holofotes direcionados ao interior de Alagoas, não se contentaram com tantos senhores e senhoras de outros tempos, de outra geração, genuinamente alegres pela felicidade do vizinho, do conhecido, do amigo Carlinhos. Não acharam bastante sua liberdade de ser. Não examinaram nem por um minuto o cenário, a história, a conjuntura local. Quantos não se beneficiarão da trilha aberta a picadas por Carlinhos? O alto comando discorda – pela superioridade moral que diz possuir, só um beijo lascivo atenderia às demandas de quem se diz par.

Gabriela Pugliesi, profissional na arte de pisar em ovos, em usar as palavras certas para agradar a gregos e troianos, divulgadora do bem, da alimentação do bem e da conduta do bem, não foi por menos levada à forca virtual. Decidiu, no auge da pandemia, se aglomerar a meia dúzia de amigas em casa. Todas adultas, em pleno gozo de suas faculdades mentais, alfabetizadas e cientes dos riscos que estariam colocando a si mesmas. Ponderaram, decidiram. Por tal decisão, foram alçadas ao nível das bruxas medievais e queimadas vivas, como os detentores do certo, do digno, do honroso entenderam que deveriam ser. Gabriela pediu desculpas, encerrou sua conta no Instagram e após longo período offline, retornou pedindo clemência por um sem número de vezes.

Dizem por aí que estamos a caminho do progresso, da evolução. Leis, códigos e a mão pesada do Estado intervêm em muito mais do que deveriam, impondo limites ao nosso desejo, mas, principalmente, à nossa ação. Construímos um monumental arcabouço punitivo para as condutas humanas mais execráveis e, mesmo para elas, já se defere o direito ao esquecimento – para que, após o pagamento da pena, cada um toque sua vida, novamente, como quiser. A muitos, não se exige nem isso. Porque, a despeito do invólucro nobre de muitas das exigências da moda, os valores mais elevados e férteis ao surgimento de civilizações que se prezem minimamente não parecem despertar qualquer interesse ou mania coletiva. Honestidade é um exemplo – jamais ganha as passarelas.

Na contramão do real progresso, parimos, nutrimos e vemos crescer uma nova geração de futriqueiros, curiosos na janela, ociosos na calçada. Fiscais e fixados à vida alheia. Caga-regras num bizarro tribunal de exceção. Umas pragas infestadas em todo canto. Não em Penedo, como pude ver no último verão. Lá, parecem todos ocupados em manter o trabalho em dia, a casa limpa, a cama arrumada. Como Dona Glorinha, não perdem tempo com o mundo extra-muros. Quem quiser que ponha seus umbigos à mostra, que case, descase, que se aglomere. Que siga a tendência que melhor lhe aprouver. Mas, lá fora. Não na casa dela.

LENTES DE AUMENTO

Dia desses, uma grande amiga pediu a mim um norte sobre adestramento canino. Não sou uma especialista no assunto. Baco, meu lindo e temperamental shih-tzu, não senta quando peço, não dá a pata quando estendo a mão, mas sai do meio do caminho quando peço licença e faz xixi no lugar certo desde seus três meses de vida – sendo esta última a distinção que despertou a curiosidade de minha amiga.

A fim de ajudá-la a educar sua nova mascote, uma pequena maltês, expliquei o pouco que havia aprendido na TV com “o encantador de cães”, César Milan: reflexo condicionado, estímulo, premiação às atitudes corretas, indiferença aos equívocos e repetição, uma incansável repetição. Como costumamos fazer, permitimos que a conversa descambasse para outros assuntos, que embora humanos, não me pareciam totalmente dissociados.

Na tentativa de evitar a morte, que uma hora ou outra nos atingirá a todos, muitos têm visto nela uma saída para as angústias que se apresentam no isolamento. Uma psiquiatra afirmou há dias – ou meses, já não sei dizer –, que a quantidade de pessoas desistindo da vida aumentou triste e consideravelmente. Ao telefone, eu e minha amiga falamos também disso e não pude evitar pensar sobre o que podemos fazer para lutar e vencer a nossa própria incoerência.

O primeiro embate, acredito, é se dar conta de que boa parte dos problemas evidenciados pelo isolamento já nos era familiar, já nos fazia companhia. Os defeitos de quem divide conosco o mesmo teto, as falhas nos nossos relacionamentos, os erros passados, a ausência de garantias, a falta de dinheiro, para muitos de nós, já eram de nosso convívio próximo. A rotina atarefada, o tempo escasso para um sem fim de metas, as distrações da vida externa, no entanto, ocupavam quase que inteiramente o espaço disponível à instalação do ócio – e ócio, como se sabe, não é oficina de coisa boa.

O segundo ponto, decorrente do primeiro, é lembrar que na impossibilidade de esconder embaixo do tapete ou de deixar para amanhã o enfrentamento ao que nos importuna, a exposição constante, diária, sem folga, férias ou mesmo intervalo intrajornada, projeta os holofotes e cria sombras horrendas, maiores e mais imponentes que o objeto em foco. Mas, como se diz a uma criança de 4 anos em uma, duas, em todas as noites: não há fantasmas, não há monstros sob a cama.

A terceira e última questão a ser ponderada é jamais esquecer que somos todos a razão de sorrir de alguém. A nossa capacidade de pagar boletos, que, como tudo mais, não é definitiva, nem estável, nem constante, não nos define em absoluto. Não é isso que atrai ou repele o afeto alheio. A vida é cíclica e a maré não só seca, nem só enche. Das palavras em voga, repetidas por todos até causarem aversão, resiliência é a que entendo mais útil. É preciso persistência, insistência e visão a médio/longo prazo. Assim como no adestramento canino, os erros, as falhas, as perdas não devem ganhar atenção para que não cresçam. Os pequenos acertos, por menores que sejam, devem, contrária e enfaticamente, ser celebrados para que desabrochem e se estabeleçam.

Baco sujou a casa inteira até o dia em que deixou de sujá-la. Àquela época, eu não tinha certeza ou qualquer garantia de que, repetindo conselhos de um guru de TV, ele aprenderia o certo algum dia. Não me dei outra opção senão a de continuar. Repeti dia após dia, várias vezes por dia, o que acreditei ser o certo. Confiei. Lutei fortemente contra meu instinto primeiro em reagir a seus erros, em puni-lo. Engoli a seco a impaciência, o cansaço, a desconfiança e pus seus raros acertos em lentes de aumento. Deu certo. Cresceram, firmaram-se e há 10 anos ele faz xixi no mesmo lugar. Não esmaeçamos, portanto. Ainda estamos sujos, confusos e vacilantes. Mas sigamos firmes. Desconfiados, talvez, mas firmes. Não enxergamos ainda, mas quase posso sentir: o resultado, a luz, a premiação que buscamos, o consolo para todo esse sofrimento, está logo ali.

O QUE NOS PRENDE

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Dentre os pecados capitais, a inveja talvez seja o único unânime no constrangimento que provoca. Não há quem assuma que sente, quando sente, nem por quem sente. Colocar-se como objeto de inveja, no entanto, não parece fazer vergonha quando se analisa o volume de invejáveis autointitulados e a desinibição com que usualmente pavoneiam sua suposta condição. Nas redes sociais, por exemplo, não é necessário muito tempo ou esforço para encontrar publicações de pessoas incumbindo à inveja as críticas que recebem por seus erros e fracassos.

Em Mal Secreto – inveja, Zuenir Ventura faz uma distinção logo de cara entre inveja e cobiça que vale sempre a lembrança. Segundo o autor, a cobiça se atém ao desejo pelo que é do outro, sem que isso implique a destituição da posse ou qualquer outro prejuízo ao paradigma. Já a inveja seria o círculo concêntrico de maior diâmetro, que engloba a cobiça em seu núcleo e a qualifica pelo dissabor que a prosperidade alheia desperta. É, ela é feia. Repugnante. E quando se converte em imagem mental ou real, de nós mesmos ou de terceiros, causa tanta repulsa quanto qualquer de nossas iníquas humanidades. Não tratarei mais dela, portanto. Falarei da inofensiva cobiça apenas. Do desejo individual que não impede ou se ressente de quem possui ou também deseja.

Anos atrás, assistindo ao programa de Jamie Oliver na TV, um diálogo entre ele e um morador de Nova Orleans me impactou. Jamie estava gravando uma série de episódios sobre a culinária americana e chegou à Luisiana poucas semanas depois da passagem do furacão Gustav pela mesma região. Intrigado, o apresentador questionou um de seus entrevistados sobre qual seria a razão de não saírem todos de lá com seus filhos e panos de bunda. Ele próprio, um pouco antes de obter sua resposta, afirmou que esta seria a sua escolha, caso morasse em um lugar tão sujeito a desastres naturais (os furacões Andrew e Katrina já haviam deixado ali um legado de devastação e morte em intervalos não muito extensos). O entrevistado viu no afeto a justificativa da permanência, sua e de muitos de seus conterrâneos. A família, os amigos, as redes comunitárias, a história pessoal eram todos fatores vinculativos, eram todos elementos entrelaçados e enraizados no afeto.

Segundo a primeira lei de Newton, todo corpo continua em repouso ou em movimento até que forças opostas aplicadas sobre ele alterem o estado em que se encontra. Pelo que se vê, a natureza e seus propósitos secretos não parecem impingir força suficiente à migração de muitos dos habitantes da Luisiana. Daqui debaixo, embora num ambiente infenso a catástrofes naturais, a insegurança pública e a jurídica, a hostilidade generalizada, a cultura da corrupção e a irrevogável Lei de Gerson parecem aplicar, a meu ver, força mais do que suficiente para que muitos de nós pensemos em nos retirar. Poucos, no entanto, mesmo podendo, abandonam suas casas, desencravam suas raízes. A maioria de nós resiste, a maioria de nós se mantém umbilicalmente ligada a nossos consanguíneos, intrinsecamente atada a nossos irmãos por eleição. Impelimos força contrária digna de ventanias devastadoras e, como se sabe, da soma de forças opostas equivalentes nada resulta.

Eu não estou entre os que podem sair. Estou, sim, entre os que pensam nisso com alguma frequência. Não tenho dinheiro ou posses que me permitam fugir, mas das apostas na loteria de uma vez ou outra me concedo o direito de sonhar com a porta de saída. Não tenho dupla nacionalidade e longe de mim invejar quem a tem. Não vim falar sobre inveja, como disse. Não me incomoda quem quer ficar, não me causa qualquer desconforto também quem deseja ir. Agora há no jardim do vizinho o que desperta não só a minha atenção, mas, principalmente, o meu interesse: o passaporte extra e o desprendimento de partir. Nunca tive o primeiro e o segundo perdi. Se você os tem, fique tranquilo. Não é inveja o que sinto, garanto-lhe. Mas, por via das dúvidas, não custa rezar uma Ave Maria antes de dormir.

LIÇÕES DE MESTRE GRAÇA

Assim como Graciliano, não sou dada a releituras. Uma das exceções dele foi Menino de Engenho, escrito por Zelins, como chamava José Lins do Rego, seu grande amigo. Uma das minhas exceções é este livro, Graciliano: retrato fragmentado, escrito por seu filho, Ricardo Ramos.

Entre lembranças aleatórias sem compromisso com a cronologia, realmente fragmentadas, conhecemos o pai, o filho, o marido, o escritor, o amigo, o alagoano, o engajado, o ex-prefeito, o ex-detento, Graciliano. O Graciliano avesso às exclamações porque não era idiota para se espantar à toa; às reticências porque se há o que ser dito, pois então que o seja; e aos “quês”, as grandes e verdadeiras pragas.

Dos tantos retratos exibidos por Ricardo, dois consolam minha alma. O primeiro, quando Graciliano pede a Ricardo que revise a segunda edição de Angústia porque se continuasse ele próprio revisando-a, certamente tal edição sairia em branco. Se nem ele gostava dos seus escritos deslumbrantes, quem sou eu para gostar dos meus. O segundo, da sua amizade tão íntima e pessoal com Zelins. Este chegado à direita, ele, à esquerda. Não há registros de que esta discordância os levasse a xingamentos, ataques pessoais ou afastamento por “divergência de valores”. Os valores eram os mesmos, queriam ambos o bem-estar geral, a dignidade mínima. Não pelos mesmos meios, apenas. Quando Graciliano saiu da prisão, foi Zelins quem lhe deu abrigo. O par, a concordância cega e absoluta, o aplauso fácil e irrestrito não serviam de base àquela amizade. O respeito à existência do outro, à sua história e às suas possibilidades, sim.

Isso, nos dias de hoje, parece invencionice, ficção. Conhecemos pessoas desde a infância, às vezes, frequentamos suas casas, convivemos com suas famílias. Sabemos de sua hombridade, de sua retidão. Mas, ao descobrir em quem votaram nas últimas eleições, todo o lastro visto e vivido escoa pelo ralo, reduzindo os até então amigos a rótulos e julgamentos rasos, pobres e irresponsáveis. Os maiores erros da humanidade, como o nazismo, o fascismo, o comunismo, o holodomor, que não devem ser apagados ou esquecidos para que nunca se repitam, assim como a própria descontextualização da história, foram banalizados e postos à mesa junto a uma porção de batatas fritas – servidos em abundância nauseante mesmo a quem lhes imprime maior força de repulsão. Não é inteligente, nem engraçado. Não merece louvor, sequer faz sentido. Aliás, na ausência de sentido, sigo na dissidência, porque, como bem disse Graciliano, “se a igualdade entre os homens – que busco e desejo – for o desrespeito ao ser humano, fugirei dela.” Eu também, Mestre Graça. Eu também.